O papel dos coletivos na cena underground
O movimento que nasce entre pessoas
Existe um movimento que vai além de qualquer estratégia de marketing ou tráfego pago.
Ele não nasce no palco, nem em um flyer bonitinho, nem no esforço de convencer o
algoritmo a entregar.
Esse movimento nasce entre pessoas de carne e osso — e não no digital.
Ele começa em lugares que ninguém fotografa:
na calçada da D-Edge, quando duas pessoas dividem um cigarro;
ou quando um DJ que está começando pede uma caixa de som emprestada para tocar em
algum rolê, porque muitas vezes a própria casa dele não dá esse suporte (e isso, a gente
conversa depois).
Esses pequenos encontros criam coletivos.
E são esses coletivos que fazem a cena underground de São Paulo respirar.
Quero que você entenda isso:
cada coletivo tem sua própria história — e dentro dela, várias outras que ninguém vê.
Eles surgem por motivos diferentes, mas todos vêm do mesmo desejo:
o de criar um lugar onde a cidade possa existir de outro jeito.
Talvez você pense que sucesso, para um DJ, é chegar num main stage gigante por aí.
Para algumas pessoas é.
Para outras, não tem nada a ver com isso.
O que realmente importa no underground é o DJ saber o que quer comunicar e para quem.
Porque o som tem propósito.
E isso precisa fazer sentido com a casa, com a proposta, com o público, com a cena.
O underground nunca foi linear, nunca foi óbvio — e ainda bem.
É justamente por isso que ele é vivo.
Os coletivos conseguem se adaptar, experimentar, testar, sem perder quem são.
E olha… eles não existem para entreter.
Eles existem para transformar.
E enquanto houver gente disposta a criar junto, compartilhar junto, errar e recomeçar, o
underground não vai morrer.
Ele vai seguir vivo — mesmo que você não veja.
Mesmo que ninguém poste.
Mesmo que ninguém escreva.
Mas eu estou escrevendo.
E se você chegou até aqui, você já faz parte disso também.
Mesmo que você não viva a cena, você precisa, no mínimo, conhecer e respeitar.
No fim das contas, é isso que os coletivos fazem: eles seguram a alma do underground
enquanto todo o resto muda. São eles que acolhem, que empurram a gente pra frente, que
lembram o porquê começamos e mostram que existe espaço para criar do nosso jeito.
Então, quando alguém me pergunta onde a cena começa, eu respondo: começa no olho no
olho, no risco compartilhado, no som que ninguém entendeu ainda, mas alguém acreditou.
Começa entre nós. E é por isso que continua.
Yasmin Cirilo